25 de abril de 2018

Como explicar a insuficiência renal...

Encontrei este texto na internet e tenho que dizer que fiquei profundamente comovida com a maneira como explica esta doença.
Quem dera que no meu tempo tivesse existido uma alma com a capacidade de me explicar um terço que fosse do que este texto transmite.
Excelente, é a palavra correta para definir este texto. 



"A Insuficiência Renal Crónica...

Os rins, que se transformam em funcionários de limpeza a tempo inteiro, deixam-nos asseados. Fazem de peneira para as impurezas do sangue e para a água e alimentos que ingerimos, produzindo a urina. E é por isso que às vezes estamos apertadinhos.
Também têm outras profissões: também são jeitosos na engenharia, produzindo hormonas importantes para o desenvolvimento. Por exemplo, a renina e a angiotensina, duas meninas sinaleiras que vigiam o trânsito arterial. Com elas, só há tensão da boa. Segue-se a eritropoietina, a menina-carteira que envia cartas à medula óssea (nome complicado para a fábrica de células-mãe) para aumentar os glóbulos vermelhos (pipocas vermelhas saltitantes que fazem de autocarro para o oxigénio) que nos dão aquele aspecto de “bochechas-cor-de-beringela” e não o das “bochechas-dá-cá-a-ardósia-que-pareço-giz”.
Gostam também de fazer de balança. Ora equilibra aqui o cálcio, ora ali o fósforo, empurra prà`li o potássio, ora puxa pra cá o sódio. Ufa! Ah, e ainda não se esquece da vitamina D, essa menina cheia de força que se agarra ao cálcio e nunca mais o larga até deixar os ossos rijos.
Depois de lhes conhecermos tantas habilidades, é melhor sabermos onde moram, não vá o equilíbrio nos faltar e termos de lhes bater à porta.
Rua fundo das costas, lado esquerdo/direito, número dois.
E o que é isto de ter uma doença crónica?
Quer dizer, irreversível. Não liga as luzes de marcha-atrás. Pode ter direito a penso rápido apenas, mas nunca cicatriza. É um dói-dói graaaandeee . E no tempo, também. É diferente da irmã reversível, de nome aguda, que vem, magoa, mas vai. Os feijões mágicos deixam de ser suficientes na sua profissão e precisam de ajudantes permanentes que moram do lado de fora.
E há várias razões para dói-dói acontecer, tais como as malformações ou obstruções das vias urinárias (o senhor arquitecto adormeceu quando fazia o desenho das estradas do fundo das costas), as nefrites (dói-dóis inflamatórios teimosos que abraçam rins e não os soltam), quistos renais (balões meios cheios, meios vazios), rins malformados (outra vez o arquitecto!) e as doenças renais hereditárias (herdadas da família, com amor).
A Insuficiência Renal Crónica gosta do silêncio.
A Senhora Insuficiência Renal Crónica gosta de andar pé-ante-pé. E de pantufas. Chega, decora os feijões a seu gosto e não vai embora. Vai fazendo cócegas aqui e acolá mas às vezes torna-se difícil de a entender.
Gosta de mexer nas dobradiças no nosso corpo e de nos deixar virados do avesso com tantas comichões.
Mas os papás desconfiam…
Às vezes, os papás desconfiam das réguas de crescimento e das balanças. O menino tem o seu ritmo, ora pois.
“deixaram de construir réguas como antigamente e as balanças andam sempre mal amanhadas.”
Outros desconfiam da agricultura pouco biológica. Há alimentos que, quando chegam ao estômago, têm de fazer estragos, pois claro. E a barriga tem de os deitar cá para fora.
“demasiados químicos nos alimentos”, pensam os papás.
”que vontade de vomitar”, diz o rebento. E vomita.
Há os que desconfiam das fraldas. Caramba, absorção para que te quero!
“como é que o meu filho tem insuficiência renal se faz xixi do tamanho das cataratas do Niágara?”
E depois há os que escrevem cartas a solicitar desconto no fornecedor da água lá em casa porque não há sede que aguente tanto “abrir-fechar-abrir-abrir-abrir…” da torneira da cozinha.
“filho, a tua prenda de aniversário vai ser uma mangueira com água-para-que-te-quero!”
Mas todos (repetimos, todos!) levantam o ânimo lá do fundo da eterna certeza dos papás:
“o-meu-filho-não-pode-estar-doente-porque-eu-não-quero!”.
E depois há os senhores de bata branca que levantam o sobrolho quando correm os olhos em papéis bem diferentes dos da escola.
Parecem mais sérios. E há toda uma nova matemática: números que confirmam as “bochechas-dá-cá-a-ardósia-que-pareço-giz”, números que somam isto e aquilo e que nos dão muita tensão na hora de fazer contas à menina tensão, contas de somar e subtrair em desenhos engraçados que aparecem em televisões estranhas (cinti-qualquer-coisa e eco-coisa-nenhuma)
Números. A senhora Insufiência Renal é apaixonada por números.
E depois fazem uns rabiscos onde dizem o nível da senhora. Há vários níveis (de 1 a 5, como nos jogos da consola) e em cada um há vilões malandros a combater.
E o dói-dói como se trata?
Como a senhora Insuficiência Renal veio para ficar, apenas podemos fazer com que não aborreça muito. E por isso, enviamos para dentro rebuçados que só há em mercearias cheias de poderes especiais. Se vai ficar, que fique feliz.
Pode acontecer a senhora ficar aborrecida e ter a ideia de fazer obras nos feijões. Pode acontecer termos de lhe dar mais do que rebuçados. Temos de lhe oferecer coisas diferentes como uma tarte de diálise peritoneal (a mais habitual nas crianças) ou um bolo de hemodiálise.
O transplante renal é a loja inteira de doces.
Dói ao tratar o dói-dói?
Um bocadinho. Um bocadinho…"